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bisturi

com as mãos
ela apoiou-se sobre meu peito
deslizou dedos sobre meu corpo
e aquele toque 
me atravessou.

rompeu a pele
transpassou sentidos
e vazou por dentro
sem feridos.

o silêncio salvaguardou o vazio
enquanto
a respiração cicatrizava vias abertas

era como se ela me dissesse:
      - eu tô aqui. eu tô contigo.

pra extirpar toda dor. pra retirar tumor.
e assim melancolia se foi.

quando te leio

pureza foi prelúdio
na inocência
no impulso
no encanto
no aceno,
na brincadeira de escrever sobre O Vento

mas remonto a obra
equilibrada
desdobro
pontuo
e cravo
a epifania literária
dos momentos que participei

faço a digressão
falamos de saudade e poesia
sexo e angústia
dor e religião
nos inclinamos ao horizonte
no populacho,
na escarlatina,
ou no chá das 3: uno de vez

retorno à casa
aos textos
me faço objeto de tua palavra
te leio com coração
faço dos versos compreensão
justifico sentimento
te dou prosa, te dou rima, te dou a mão
e digo no seu ouvido
"nada do que escreves é em vão".

detalhes do sabiá

ontem você me lembrou daquele dia no parque

o sol me ofuscava e você quis trocar de lugar comigo, mas seu cabelo estava lindo no contra luz. era só um detalhe. jamais sairia dali. / descrevi seus olhos. amarelo em dias claros, com tons de verde musgo e caramelo. deixei o coco gelado cair. detalhes. / com a ponta dos dedos deslizei no seu rosto. falei que você era linda. te tirei um sorriso. / olhei tanto para você que, sem pronunciar uma palavra sequer, talvez tenha dito mais do que deveria. na hora não percebi que estava transbordando. foram detalhes. / você elogiou minha camisa azul, ganhou no improviso um anel de presente e, pela primeira vez, me deu a mão para andar. o que nos edifica são os detalhes. / caminhamos por horas e conversamos sobre quase todos os assuntos do mundo. se o dia não tivesse que terminar, hoje ainda estaríamos lá. mas só por um detalhe de calendário, domingos sempre terminam. / já parecia despedida. já parecia que não seria a última. e hoje eu lembro os detalhes daquele dia no sabiá. / 

quanta saudade.

furnas

sonhos amanheceram no interior de minas gerais.a cidadela agonizava em roncos de máquinas. algo maior estava para acontecer.

olhos entreabertos, cabeça no lugar. no coração. ventos traziam o chamado do concreto e da natureza. do antigo e do novo, ambos reutilizáveis. recicláveis a ponto de transparecer esperança.

todo clímax é hostil. a represa inundou novas formas de vida. tudo que um dia foi vivo estava ali, observando. me observando.

a tempestade elétrica se fundiu com a noite. pirotecnia nas nuvens. nos encharcados sentimentos. fazendo do medo, paz. redenção.

só de abrir a boca a ambição comeu terra. o caminho é rico, mesmo sem moedas nos bolsos. nele tem eu e você. tem películas analógicas e balões vermelhos.

como aquele seu sorriso, a redenção está na pureza. e assim o curso do rio desviado aprofundou-se nos lençóis do coração de um menino-combatente: 

liberdade há de ser maior.

hemorragia

é
tua boca sangrando a minha
    naquele batom vermelho.
é  tua prova, tua prosa,
tua ideia tomando nota/
                em mim.
       dizendo que vim. dizendo que sim.
   é abraço de novo mundo/
            de novo tudo. de todo modo.
    é encontro sem cronometrar tempo
         nos lençóis construir templo/
         perder manhãs em horas desregradas.
   é troca de roupas,
                veste de nova família/
     em camisas | ao avesso.

e essa inundação/ além do que vai dar,
                  eu não preciso estancar.

Central do Brasil

vergalhões de aço nasceram de substantivos primitivos.
a pino, a Central do Brasil. faminta.

suor e sangue secaram debruçados em dissertações singulares.
a carcaça caminha cansada na calçada
o asfalto transpira meio dia.

bicho homem evolui mais uma vez.

setecentos mil pêndulos diários. imortais o ano todo.
seres e coisas, cimentos e abstratos. corujas na alvorada.
estados, processos, acertos e erros. morcegos no vão.

substância e existência
ferro fundido
designa ser (designa o ser)

substantivado. como os galhos de uma árvore

que amigo

Olha como é nossa maturidade, sádica. Durante toda a infância vivi sem um amigo imaginário sequer. Nunca precisei de um. Hoje, aos 22, tenho vários. São vocês, leitores do blog. Que entram aqui diariamente, comentam e debatem os textos numa mesa de bar. Então eu queria dar-lhes um sincero "muito obrigado". E o faço de coração, gente. Se vocês fossem reais isso aqui não existiria da forma que é.