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argamassa

agora
escrevo monólogos
versificados

foi o que sobrou
na minha caixa

uma espessa camada
estéril
de criatividade

azul e fúria

da janela vi a noite despencar

fragmentos de universo

blocos de concreto

trechos incompletos

caíram sob o teto da nossa compreensão

essa bagunça!

forrem o chão com o infame. comecem com os jornais de ontem

deem-me tempo. morfina na veia

que amanhã o céu amanhece assim:

"tinta fresca"

insolúveis madrugadas

cheguei e comi. comigo.
olhei e percebi. sem você.
minha liberdade organizada e compulsória.
minha vontade desenfreada, minha angústia,
os sentimentos previsíveis. repetitivos. sinceros.
eles gritam e explodem presos no espaço-tempo.
estou aqui e penso demais. demais.
bebi uma cerveja. fumei um cigarro.
vi fotografias e visitei memórias lúdicas.
reconheci seu sorriso. senti seu perfume.
precisei te escrever (dessa vez sem pensar)
só deixei escoar,
vazar a cabeça
até transbordar a palavra da minha boca e fazer a poesia ter sentido.
porque a vida já não sabe mais o que é isso.

portão 13

antes de ir, e entrar naquela porta

deixa eu ver você mais uma vez.

deixa eu te ter por enquanto. por esse tanto.

deixa eu te ler antes de dividir.

antes de despedir, e você ir

por favor,
fica.

em quatro a sós

cá estamos nós.
sós.

o epicentro da puberdade.
inferno, cidade.

urbanizamos o moralismo.
edificamos ruínas.

arranhamos o céu.
e parimos um lugar de solidão.

o beco

escrevo agora numa caderneta escura
entre homens de gravata
e pessoas dentro d'um metro quadrado
não enxergo nada além de brisa

mas

a resignação não é opção
ter lápis
e papel
é um privilégio

deserção (parte II)

me cozinho em banho maria.
enfrento. aguento. dispenso.

tor-men-to

meu sangue fermenta vocação.
mas minha carne não será teu trunfo,
eu não sou teu alazão.