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cripto

queria ser pássaro mas
no futuro serei um pixel.

tudo que cresce esvazia meu espírito.

queria ser planta mas
queria ser chuva mas
queria ser música mas

no futuro serei bitcoin.

o jardim das camomilas

deito-me
no jardim das camomilas.
converso com o perfume
submerso no teu ombro

respiro-te
no segredo da infusão das flores.
buquê, princípio das ervas
das minhas próprias primaveras

esfumaçar

certa vez,
o tempo queimou na velocidade dos cigarros.

então nos vi: olhando pro céu e procurando Gêmeos e Órion.
colecionando pedaços do universo
amaciando nossos blocos de concreto, se encontrando em versos incompletos.

o tempo é assim,
esfumaça pouco a pouco 
e esses momentos já não acontecem mais.

estrelas riscam o céu todos os dias,
mas as que a gente consegue ver são diferentes.
e as que a gente consegue ver em companhia, ainda mais.

por isso, apesar de queimar
o tempo muda dependendo de quem tá com você... pra compartilhar

...pra ver ele esfumaçar.

soturno

(eu cato minhas)
foças
(refaço suas)
dobras
(destaco nossas)
sobras
(pra enfim dormir nas)
sombras

lágrimas de plástico

chove profundo no teatro da cidade
chove uma chuva cenográfica

as gotas borram a maquiagem
e desenham no rosto lágrimas

os palhaços continuam sorrindo
dentro do choro de tinta
e dançam uma mímica melancólica

profundo chove na cidade teatro
chove chuva que cheira cherume

a boca com brasa disfarça
dos cuspidores de fogo o mal hálito da cachaça

as garças decolam dos rios
com as coladas asas de óleo
e aprendem a prisão que é voar ilusão

chuva de verdade, aqui, é realismo fantástico
no circo das lágrimas de plástico.

velório

da vida, sinto saudade
nostalgia causada pelas carinhosas memórias que tenho guardadas

é da vida que sinto saudade!

e por isso, já não temo em nada
a morte que deveria ser evitada.

necromância

é doce, é gostoso... e mata muito também:
o açúcar. e o amor.

então enforque-se na corda da liberdade!
esfaqueie-se com a lâmina do sexo.
sangre as ressacas da alma.
cuspa os pulmões dos tragos mais demorados.
frite com as úlceras da mente.
suicide-se! todos os dias,

na manhã seguinte,
volte dos mortos pra contar o que viu.