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Deserção.

Pois é, sinto saudades.
E depois de 7 meses desde que a declaração formal sobre o fim do blog foi dada, eu voltei.
Voltei para dizer que o Complexo Alpha é, sim, uma excelente companhia.
Como as que poucos conseguem me dar.
Pois é, eu voltei.

Despedida

     Espero que dessa vez eu seja breve... pela última vez.
     
     É, meus amigos, parece que chegou o momento mais difícil que esse blog terá de enfrentar: seu fim.
     Sim, andei pensando nos últimos dias sobre essa possibilidade e cheguei a conclusão de que esse ciclo precisa ser fechado. O Complexo Alpha foi uma experiência e tanto na minha formação, muito embora eu o tenha usado apenas para dividir besteiras e erros gramaticais com o mundo. Não que isso não tenha sido nobre, pois eu realmente acho que foi. E, na verdade, me sinto como se tivesse cumprido com meu dever. Aqui escrevi durante os últimos 3 anos, desde o dia 31 de Março de 2008 até o dia de hoje, 1 de Abril de 2011. Dia que, numa outra ocasião, eu usaria para pregar uma peça em vocês - falando que fecharia o blog com um texto igualzinho a esse, haha. Mas esse dia infelizmente não é o de hoje. Esse post não é uma brincadeira de primeiro de abril, eu acho.


Uma noite com Arlindo

"Essa música não sai da minha cabeça", reclamava durante o dia.

Acordou no meio da madrugada.
Sua irmã na cama de cima.

Continuou deitada.
Olhando pra cima, com o escuro sem deixar ver nada.

Não via teto, não via paredes, não via nada.
Só conseguia ver que na verdade não via absolutamente nada.

Via, e ouvia, a música.
Bem nítida, ressoando na cabeça.

Resolveu levantar.
O silêncio era quebrado pela frequência mansa do ventilador e, é claro, pela re-batucada da música, que não saía da cabeça - e se misturava à melodia do ventilador.

Atravessou o quarto e abriu a porta sanfonada
Passou pela saleta que liga os quarto à cozinha e, quando finalmente acendeu a luz, lá estava ele:

Com um banjo, a barba safada e cordões de ouro pendurados no pescoço.
"Isso não é possível", ela pensou... era Arlindo Cruz.

Sentadinho na cadeira, olhando para ela com aquele sorriso de pagodeiro, 
E puxando um 

"Globo Repórter é B-B-Beleza/ e pra ser Mais Você é muita Malhação/ 2010 é com a bola nos pés e o controle na mão/ Não é mole não, meu irmão, não é mole não/ O povo escolheu a Globo/ isso é globalização (...)".

Inacreditável.

Conversa do eu comigo

Quantas vezes desencontrei-me?
          perguntou um Eu pensante e dotado de consciência.
"Muitas", respondeu um impulsivo inconsciente errante.

Encontrar-se.
Encontrar-se.
Encontrar-se. 
          repetiu-o algumas vezes a fim de encontrar-se
           já no significado bruto da palavra.
"Independe de outrem", indagou o inconsciente.

Independe, de independer.
Seria esse mais um desencontro
ou encontrar-se depende da solidão?
          perguntou-se já sabendo a resposta,
          ainda que ela não viesse de estímulos diretos.
"Encontrar-se em si mesmo é o desencontro"

Encontro-me em você. Certamente.
          encontrar-se     e no lugar correto
          até seu inconsciente já entendia

O Metrô, episódio II

Ele não chega do nada. Sente-se sua presença ainda distante, ouve-se um urro mecânico, aquele som ou barulho que lembra uma avalanche corredor a dentro. É ele quem está chegando. Seus grandes olhos brilhantes iluminam todo o longínquo caminho escuro até que possamos ver sua face azul metálica. Sim, é ele. É hora de dar um passo a frente e cruzar a linha amarela.

Todos estamos esperando-o da mesma forma, confortáveis e despreocupados. Particularmente, não pensava em nada tão específico até o momento. Os outros eu já não sei. Nem imagino. Afinal, são tantas pessoas ali. Tantas vidas, tantas histórias, tantos caminhos diferentes e que se cruzavam diariamente dentro daquela fabulosa estação. São tantas pessoas... elas se relacionam e interagem ativamente. Por algum motivo ainda desconhecido, o comportamento humano ao vê-lo dobrando a pequena curva que antecede na estação Uruguaiana se torna mais agressivo. O conforto acaba e todos se espremem rigorosamente buscando posicionar-se estrategicamente para recebê-lo da melhor maneira possível. É lindo.

Quanto mais ele se aproxima, mais o solo torna-se inconstante, ele treme. Treme de medo, de respeito e admiração. E também pudera. É o senhor do subterrâneo que se apresenta. Robusto e intimidador. O som de seus freios ecoa por toda a galeria, construída especialmente para ele e somente ele desfilar. Nós somos meros espectadores.

Ao parar, o espaço entre uma e outra pessoa torna-se ainda menor. E não há fórmula física capaz de provar que existem possibilidades reais de tantas pessoas entrarem num lugar tão pequeno quanto aquele. Novamente, é lindo!

Poucos que cruzam este lugar mágico percebem a delicadeza do espaço, poucos realizavam quão simbólico era estar diante aquele grandioso colosso do movimento entre zona sul e zona norte. Ninguém se importa. Apenas eu: "É ele" - pensei - "Estou diante dele". O cavalo de ferro azul metálico.

E não tardou até as portas se abrirem.

Este post não tem título

Nem corpo. Nem texto. Nem sentido. Nem nada.
também quero ser dadá.

problemas com a subjetividade do poeta

Prof. Roberto,

Lhe escrevo para que me ajude com algo que há algum tempo vem me atrapalhando. Perdoe-me pelo contato através de uma carta improvisada, mas como não o encontrei no Instituto nas últimas duas semanas, não tive outra opção senão escrevê-lo, já que considero meu caso como uma urgência.

Prometo que serei breve e direta, professor. Eu preciso de um eu-lírico.

Se lhe pareceu sarcasmo ou insolência, acredite, não foi minha intenção. Tenho dolorosamente insistido em escrever histórias que não pareçam páginas de meu próprio diário. Ando falhando. Em meu último livro de contos, "Cartas anônimas num salão de balé", fiquei impressionada com o número de pessoas que me mandaram mensagens, quase todas tentando me consolar. 

Não me tornei uma boa escritora. Me faltam boas figuras e poder de criação. Meus personagens são rasos e sem gosto. Em poemas, escrevo sentimentos e passagens de minha própria vida. Ela nem é tão interessante! Penso que o motivo de meu razoável sucesso está relacionado à minha habilidade em ser vítima de minhas próprias palavras, mas com um certo carisma.

Preciso de sua ajuda, professor. 

Assim como a personagem principal do meu último livro também precisava, quando escreveu uma carta numa folha de papel ofício A4 como esta. Essa personagem, Rebeca, me persegue. Por mais que mude seu nome, nacionalidade, aparência física e temperamento, no fundo, ela sempre parece a mesma pessoa. Eu.

Preciso de um eu-lírico, professor. Espero que entenda. 
Preciso muito de um eu-lírico que-não-eu.

Cordialmente, 
sua aluna Amaranta.